Escrevo porque não tenho dinheiro pra fazer terapia


Como o avião para a humanidade

 

De todas as vezes que eu me vi nesse tipo de situação, sem sombra de dúvidas essa é a pior delas. Não consigo parar de pensar em todos os nossos momentos bons e nas coisas que aprendi contigo, mesmo quando você não queria ensinar. Talvez as coisas tivessem sido diferentes se suas boas características não me atingissem tão negativamente. Eu não sei se o problema é comigo, do mesmo modo que eu também não sei como coisas que são aparentemente “boas” se transformaram em grandes barreiras entre nós.

Você é movido a grandes emoções, está sempre com metas para atingir e isso é muito bom na vida a dois, porque eu sei que você é centrado e persistente naquilo que deseja. Sei também que você tem seus objetivos pessoais, que precisam ser cumpridos para você ficar bem. Mas, caso o contrario aconteça, você é tomado por um sentimento doido de incapacidade e precisa provar para si mesmo que é capaz, e essa paixão se torna doentia e ofusca o sentimento que você tem por mim, a ponto de eu começar a pensar em colocar duas rodinhas em mim e mudar meu nome pra Caloi, pra ver se consigo a mesma atenção que você dá à sua bicicleta.

E como num passe de mágica, conseguindo atingir ou não o seu grande objetivo, você simplesmente volta ao marasmo de antes e quer que eu continue a mesma, como se essas coisas não me atingissem.

Eu adoro o jeito como você eleva minha auto-estima, e você faz isso constantemente. Sem que eu precise perguntar se “esse vestido me deixa gorda”, você se adianta e me lança um olhar admirado como quem pensa “como eu tenho sorte de ter essa mulher” e me diz, com uma voz suave a aveludada, “você está linda”. Isso seria ótimo, se eu não soubesse o quanto você flerta quando eu estou longe e, sabendo disso, todos os seus elogios me parecem mecânicos, fruto de uma mente treinada que não quer que eu troque meu vestido, para que possamos sair rápido de casa e ir para a festa onde, muito provavelmente, vai lançar olhares a alguns vestidos bem recheados como o meu.

Você me conta com tanta superficialidade sobre seus problemas cotidianos, como os de trabalho ou mesmo os pessoais. Eu sei que talvez você não queira me aborrecer com problemas que eu não consigo solucionar por você e sei que ficaria difícil me contar algumas coisas intimas que nem você sabe direito por que te incomoda. Mas essa sua tentativa voluntária de me poupar me exclui de uma parte muito importante na sua vida e me faz pensar que você acha que eu não tenho capacidade de escutar ou mesmo aconselhar. Você, na realidade, não está poupando a mim de escutar problemas chatos, mas está poupando a si próprio de escutar minhas opiniões, que você julga serem tolas. Isso prova que você não me conhece nem metade do que deveria, e subestima minha capacidade de, antes de tudo, ser sua amiga.

Eu sinto que você quer sempre resolver por mim os meus problemas, compra todas as minhas brigas e me defende como ninguém nunca defendeu antes. E isso é ruim por dois motivos básicos: primeiramente, você não deixa que isso seja recíproco, não me deixa comprar suas brigas, não me deixa nem saber quais são suas brigas; em segundo lugar, porque você não faz isso com o ar de quem defende sua amada por amor, mas sim como quem foi designado a defender uma pobre coitada que não pensa direito e não pode tomar decisões sozinha. E eu sei que eu não sou assim, e você também saberia, se parasse para enxergar tudo que eu tento te mostrar enquanto você tira meus próprios problemas das minhas mãos e os resolve por mim, sem que eu peça.

Eu me recuso a acreditar que o problema está somente em mim. Suas qualidades que eu mais admiro, são as que mais me maltratam.

Eu sei que você talvez nunca tenha pensado dessa maneira, mas é assim que eu me sinto... Uma vítima de todas as coisas boas que você oferece. E agora, o que me fez cair de amores por você, se transformou num abismo que nos separa. Mas é impossível continuar do seu lado sendo que você me quer atrás.

 

Carta em resposta ao autor do texto anterior, Claudio R., que me rouba, todos os dias, muito mais que palavras. 



Escrito por Deia às 12h31
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DESEJOS IMPLÍCITOS

Por Claudio R. 

Resolvi pensar sozinho num dos raros momentos em que me deixou assim. E por pensar, resolvi te deixar, abandonar-te aos teus desejos implícitos em que eu não conseguia adentrar. Eu não te quero mais por entender que o seu pessimismo trágico levou essa nossa relação a uma obscuridade que eu não conseguia mais me encontrar dentro dela, tal qual um baiano perdido no Rio de Janeiro e pedindo informação para um gaúcho característico. 

Às vezes penso que eu tinha ciúme de ti, por crer que eu não era o único estrangeiro da sua lista, principalmente ao ouvir as suas frases com trejeitos e sotaques de outros estados. 

Eu te deixei por te achar inteligente de mais, bem humorada de mais, sarcástica de mais e gorda de menos. Não conseguia competir com alguém tão esperto quanto o google e ainda por cima, alguém que soubesse disso – é o google que não me deixa passar por ignorante, ironizava. 

Deixava-me pasmado a idéia de não ter carteira de identidade, mas a paixão encobria isso, logo depois descobria e eu me via atado a ti pela sua despreocupação com isso. No Paulo Leminski era perfeitamente justificável, ele tinha um bigode que não me atraia em nada, já em ti, esse seu belo rosto e o branco lôbrego e libidinoso dos seus olhos sairiam muito lindo em qualquer documento, inclusive a referida carteira.

Achei uma grande maluquice tu comprares um carro e nem ter CNH, mais maluquice você não saber andar de bicicleta. Tudo lindo para o Caetano Veloso, mas pra mim, nem tanto. 

Ainda, eu estava na fase mais baixa da sua oscilação de personalidade nos relacionamentos, que consistia em “eu sofri, agora é a minha de fazer sofrer”. Logo eu que sempre fiz sofrer... 

De tudo, eu gostava de quando tinha nada, pois seu tudo era muito tudo e o pouco meu não agüentaria, como não agüentou. Não resistiu às palavras sinceras e mentiras doces, não resistiu ser um personagem secundário num filme onde tu tinhas todo a indumentária de protagonista. E quando acordava em meio a um filme antigo, tal qual E o vento levou , eu tinha que me contentar em não ser nada, pois, nestes dias em teus filmes a Scarlet O’Hara vivia sozinha e sofria de TPM. 

Cansei de ouvir seus dramas da cadeia alimentar de um réptil herbívoro. Cansei de escrever as tuas dietas, teu guia treinamento, de correr contigo... Cansei de vê os resultados aparecendo e tu ficando mais linda do que nunca. Nem posso lembrar, para não pensar em voltar atrás... 

Era odioso aquele seu banho demorado e o chuveiro criativo de teorias conspiratórias e filosóficas, e depois, mais odioso, o hidratante demorado de 15 minutos. 

Caso eu não esteja enganado, era assim que tu me querias, avesso às seus desmandos e vontades, agora já tem isso. Não sou mais seu amor, não sou mais seu querido, nem seu personagem preferido de uma comédia romântica – embora achasse isso o mais sincero possível. Resta-te, agora, cobrar pelos teus abraços, pois aqueles dirigidos a mim, não terão mais serventia sem ser devidamente remunerados. 

Se quiser, joga fora aquele cordão que te dei para que não te lembres mais de mim como uma coisa boa na sua vida. Jogues fora aquela calça jeans que levei dias escolhendo e ainda assim não acertando no número e no formato; confesso que paquerei todas as vendedoras do shopping, mas isso foi ensejando uma compra perfeita. Ah, não esqueça de jogar fora também aquele conjunto de lingerie que te dei e tu, implicitamente, achaste egoísta de mais. Fica com os meus e os teus livros, todos eles, teu vício como ofício. Fica com teus sonhos de riqueza com a literatura e com teus amantes letrados, os Max, os Arans, os outros. 

Como vê, escrevo-te a mão, para que sinta que é de plena consciência o que tenho dito aqui. Vou te deixar por achar-te pessimista e trágica que acredita que um namoro tem que ser como um livro do Santiago Nazarian, ter começo, meio e fim, mesmo que esse começo, esse meio e esse fim sejam implícitos. 


Claudio R. é o escritor de O Ladrão de Palavras (http://oladraodepalavras.blig.ig.com.br/)

 



Escrito por Deia às 12h25
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